Eu não imaginava onde estaria e o que faria nessa idade.
Dizem que é a explosão da vida, a tão pregada juventude. Tão nova, mas já me sinto tão chata. Sempre disse que sinto minha vida passando aos meus olhos. Sou espectadora. Mas também sei que sou agente causador. Não é assim que chamam?
Acredito tanto no conto de “feliz aniversário”, que fico afetada por não me sentir como deveria. Dias antes penso no quanto tudo isso deveria significar em minha vida e na dos outros. Tento seguir a idéia de que todos os dias são iguais, e sim são especiais. Mas esse pensamento de normalidade só fica legal no dia dos outros. É aí que vejo como as práticas comuns são tão fortes em nós. Mesmo vindo de uma família que não acredita em natal, fico me sentindo horrível no tal 25 de dezembro. Não sai de minha mente o quanto as pessoas estão se divertindo e eu não. Como uma garota que não tem prática de festejar datas católicas, sente falta da festa? Mídia? Eu acho que é a Coca-Cola. As propagandas do final de ano chegam a ser mágicas! Só falta eles venderem vassouras para a gente sair voando após a meia noite.
Bom, não é que a gente não ceie no dia do Papai Noel, mas esse negócio de comemorar Natal não rola mesmo. Mas eu, por dentro, comemoro. Sinto vontade.
Essas ideologias anti-consumismo ou anti-religiosa são quase revolucionárias, até chegar o dia D. No natal vc imagina as coxas de frango sendo consumidas; no Ano Novo, vc pensa nas champagnes; e nos aniversários...bem, além de comprovar que essa data realmente não muda em nada, pois ninguém é ligado se não ao próprio aniversário, nesse dia eu fico pensando qual é o meu valor.
Nesse 30 de outubro,me acho chata, repetida, cansativa... sem muita imagem positiva. E eu fico pensando se melhorei ou piorei. Em amigos, acho que não, pois nem sei se os tenho. Internamente, acho que sim. Ao mesmo tempo que melhorei, continuo fechada e em meu mundo. Será que a pérola saiu um pouco mais da conchinha?
Ah, minha primeira refeição dos 23: banana amassada com leite em pó. Algo completamente infantil, mas delicioso. Porque uma parte de mim é criança, outra parte tem 30 anos e mais outra tem 15. E só não desisto dessa coisa toda, pois no fundo, continuo acreditando no conto do "parabéns".
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Interessante. Acabo de ver a palavra “coma” – aparentemente, uma pessoa que nunca vi em minha vida, morreu e ela estava em coma - e isso...me lembrou NL. O que instantaneamente me remeteu ao sonho que tive na noite passada. É tão esquisito o que sinto agora, depois que lembrei disso. É como ficar com o ar preso dentro de si, como quando se recebe uma notícia que te choca. Passa a ser esquisito respirar e vc fica com aquela aparência assustada, com a boca aberta, congelada, olhando para o nada, mas em seus olhos há um mostro que vc nunca pensou existir. Foi esse o meu look por um segundo.
Eis o sonho: eu estava, sei lá, mas acho que estava passeado de férias. No Espírito Santo. Pois bem...não lembro direito, mas sei que conversava com minha prima – ela mora no ES – e sabe como são os sonhos, as coisas acontecem do nada, e eu comentava com ela alguma coisa a respeito de um cemitério que existia ali. Tinha algo nele...acredito que era algum tipo de atração turística até. Como naquele da Argentina. Sem certeza – aliás, não tenho certeza de nada em sonhos – mas era algo assim:
- Nesse cemitério está enterrada NL.
E acho que por isso eu queria ir lá. Quando chegamos – eu, minha mãe e minha prima – fiquei surpresa, pois naquele lugar, ao contrário do que se pensa, só existia UMA pessoa sepultada: Nara Leão. Ninguém mais. Todo aquele cemitério, mas só uma pessoa morta. Foi estranho – e é mais ainda de lembrar – ver, chegar tão perto de um ser que admiro tanto, porém morto. Certa ansiedade tomou conta de mim quando vi o caixão. E ele não estava enterrado, era como se ficasse num tripé. Só que estava ali há muitos anos – ela já faleceu há quase 20 primaveras. E tinha uma espécie de guia no cemitério – pois é, guia num cemitério com uma pessoa morta apenas, onde só existia um caixão – que nos apresentou à cena. Ele dizia algo que não lembro e eu olhava aquilo num misto de susto e surpresa. Acho que até tentava pensar por que raios ela estava enterrada logo no ES (sei que a moça era capixaba, mas isso não justifica).
Chegando mais perto, notei que havia uma fenda naquele caixão. Mas não dava para ver nada lá dentro. E eu dizia ao guia:
- Olha, está aberto!
Ele retirou a tampa e eu a vi. Lá estava Nara Leão, pelos pés. Ou seja, eu estava posicionada na frente do “final” do caixão. E o mais interessante: apesar de todos esses anos, ela ainda conservava seu corpo, intacto, não havia vestígios de ossos, ou seja, não tinha virado caveira. Mas parecia mais velha. Como se continuasse envelhecendo naquele caixão, mesmo depois de morta.
E por incrível que pareça, eu não vi o seu rosto. É engraçado, porque na posição que me encontrava, eu deveria ver tudo. Mas lembro de só olhar pequenas partes e tão rápido. E acho que foi por medo. Medo do que iria/poderia ver. Acho que foi isso. Vi apenas as pernas e os braços. Não lembro da roupa que usava, mas de alguma forma, lembro de sapatos – se não estou “inventando” ao tentar lembrar...por isso não tenho certeza.
O que lembro então, é que...enquanto conversava ali, na frente do corpo, com alguma pessoa – não lembro se era minha mãe, minha prima ou o guia – alguém entre eles me perguntou por que eu não ficava com tal “objeto” da Nara – estava com ela, no caixão – e esse alguém tirou dela e me deu. Esse “objeto” pode ser ou o sapato ou algo no formato de um jornal. Não lembro. Se for o sapato, estava nos pés dela (claro!) e se for o “jornal”, estava na parte das mãos. E eu ficava com aquilo, pegava e guardava. A sensação era como se ela tivesse me dado algo. E eu acho que ficava apenas olhando, olhando...fitava aquele corpo.
Como eu queria lembrar mais. É odioso quando sonhamos, mas esquecemos. É como numa guerra, onde cada minuto é tempo perdido. É como procurar , procurar, procurar e não achar. Procurar por algo que não aconteceu.
Não sei como consegui fazer aquilo – mesmo no sonho. Eu acho que jamais faria isso na vida. Não sei como tive coragem de ir ver Nara Leão morta.
Parece tão real agora. Agora que sinto o choque, porque não fiquei chocada enquanto dormia. Parece também tão importante pra mim, como se fosse algo real, como se fosse uma pessoa real, como se fosse sei lá, alguém que estimo muito. Tudo maior que no sonho. E lembrar disso, foi como sentir que tudo realmente aconteceu e eu tinha esquecido a fatalidade.
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Andei pensando e acho que o que mantém um homem vivo não é apenas o sonhar, mas a possibilidade de que tal idéia torne-se realidade. O acreditar, confiar, o esperar, crer, ter fé. Talvez por isso nos mantenhamos acordados – fora o medo da morte, claro. Afinal, há de se estar vivo para saber quando chega o dia D.
No mais, qual a vantagem de ter a idéia fixa em algo e não acreditar? Se não quiséssemos que se cumprisse o que povoa em nossos devaneios íntimos, não seriam sonhos. No fundo, acredito que todos possuem fé em seu imaginário. Possuímos um monte de dúvidas, de buracos, de branco, de preto e mesmo assim continuamos. Não sabemos do amanhã, mas quase ninguém fica imaginando o pior para sua vida, pelo contrário. Eis que todos caminham vivendo pela fé, pelo o que não sabem e nem vêem.
Mas e se esse dia D não chegar? A frustração é maior que a esperança? A vida não é um conto de fadas, então provavelmente, tudo o que escrevi no primeiro parágrafo não existe. E há os que vivem de sonhos corroídos. Será que isso derruba a gente? Será que se o que você sempre sonhou não chegar será infeliz por toda vida?
Porém, esse sonho pode ser realizado e mesmo assim você sentir que não era nada daquilo, que estava enganado. Pode o sonho acontecer e levar toda a magia embora?
Tenho medo dessa terra do imaginário.
Minha vivência diz que, talvez eu só possa ser feliz no mundo interior. Lá fora sempre estará a desilusão, porque provavelmente não existe o que procuro. Ou existe? Não, eu acho que pode existir sim, pois vivo procurando...
O meu medo é perder o que me faz sonhar. Conhecer a fonte e perder as ilusões. Não quero ser Lucien de Rubempré, mas também não quero ser o Pequeno Príncipe - imagino ele só, com uma rosa...talvez eu já seja assim e queira mais. Temo que meus sonhos ainda tirem minha esperança de viver.
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