A palavra culpa me incomoda. Talvez, porque sejamos criados num meio onde ninguém deva ser “o culpado”, já que é errado e até imoral. Mas querendo ou não, sempre estamos à procura de uma vítima, e sendo assim, sempre há “o alguém”.
Vendo "In My Country", filme que retrata o fim do Apartheid na África do Sul e os novos rumos que o país dali poderia tomar, entrei em contato com a questão culpa. É o seguinte: em 1994, o presidente Nelson Mandela deu início à Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR) a fim de investigar os horrores do Apartheid (que significa “vida separada”). Nessa comissão, as vítimas se encontraram frente a frente com os executores dos crimes e contaram suas histórias. Esses executores poderiam receber anistia contando a verdade e provando que apenas seguiram ordens ao matar o joão, a maria, o zé, etc. A CVR é interessante, não? Quem dera não precisássemos de advogados e nossas palavras valessem nossa vida. Ou pelo menos, igualassem. Isso quer dizer que teríamos que ser verdadeiros conosco, com a vida, com o próximo. Utopia, quando se pensa em relação a humanos?
Pra ser sincera, não sei como acabou tudo lá na África do Sul, se deu certo as anistias. Realmente não procurei saber, ou ainda não procurei ler algo. Sei que a segregação acabou, mas a desigualdade não. Mas já penso que um povo que procure saídas como esta, não seja louco, ou ingênuo... Pelo contrário, perdoar é uma das coisas mais difíceis do viver, já reparou? A gente fala: "ok, te perdôo", mas não é uma questão de palavras e sim de sentir. O perdão é um sentimento - e muito raro. Acredito que seja até divino. Estar apto a colocá-lo em prática, já muda todo o contexto.
Mas os africanos pensam de forma global, entende? É o tal do Ubuntu. Não me refiro ao sistema operacional Linux - não sei se você sabe, mas existe um Linux com nome africano -, apesar de que a idéia desse programa vem exatamente do significado da palavra: ubuntu quer dizer que "estamos todos ligados, conectados. O que o machuca, machuca a mim. O que o afeta, afeta a mim e a todos. Se os africanos querem elogiar alguém, dizem 'ubuntu'. Significa que acham a pessoa generosa e dotada de compaixão. É uma questão de compaixão e perdão"***. E nisso se baseia a CVR. Talvez, se baseia também, a vida dos africanos.
O filme termina com um poema, lido pela personagem principal, Anna Malan - que agora, passo a compreender melhor:
“Por sua causa,
este país não fica mais entre nós
mas dentro de nós.
Respira tranqüilo
depois de ser ferido
em sua bela garganta.
Em minha cabeça é cantoria,
é fogo em minha língua...
Por mil histórias fui queimada
Tenho uma nova pele.
Estou mudada para sempre, E quero dizer...
perdoe-me
perdoe-me
perdoe-me.”
É de se imaginar o que esse “perdoe-me” faz ali. E três vezes!
A questão é que o filme envolve muito a relação entre indivíduos e culpa. Quem escreve esse poema é uma jornalista de família burguesa, branca e sul africana – a tal Anna. Ser branco naquela região é complicado, como ser negro. Notei que a cor te diz quem você é. E nesse caso, o branco meio que carrega a culpa – apesar de que muitos brancos foram mortos por negros no Apartheid, e também foram à CVR valer de seus direitos. E foram ouvidos.
A relação culpa X brancos segue algo como: você tem responsabilidade nesse dolo, mesmo que pense a favor dos direitos humanos. Há sangue em suas mãos, pois você sabia do que estava acontecendo e se manteve como espectador. É por tal razão que Anna pede perdão.
Claro, aí entram “n” questões. Uma delas seria o povo não saber, realmente, o tamanho da sujeira debaixo do tapete. Isso lembra o caso dos alemães com o Nazismo, principalmente no filme “A Queda – as últimas horas de Hitler”. Também não estou falando que ninguém sabia de nada. E a questão aqui nem é essa, o que pensei foi:
Até que ponto somos culpados na/pela história?
Por exemplo: até que ponto somos culpados na questão da corrupção brasileira? Até que ponto um francês é culpado pelo o que a França fez na África? E os portugueses, tanto com a África como com o Brasil? E nós, brasileiros, por continuarmos recebendo esses negros e vendê-los como mercadoria, reafirmando assim, que não possuíam alma? [nota-se que quando não temos justificativas, criamos mitos]
Então, essa é a proposta, a de que todos somos culpados de certa forma e que o ato de pedir perdão [e mudar nossos atos] é a saída. Até ouvi numa entrevista a atriz Juliette Binoche (que fez o papel de Anna Malan), fazendo a seguinte pergunta: “e se não formos nós, quem será? Todo mundo já morreu dessa época da colonização”. Ou seja, ninguém assume nada, fica como está, é passado?
Fiquei ruminando: Será que sou culpada mesmo? Com todas as infinitas atrocidades do mundo, onde meu dedo está?
O que penso não responde se temos culpa ou não. Minha resposta ao filme é que não acho que o problema branco, negros, franceses e portugueses... deva ser visto e tratado pela ótica da [des]culpa. Sentir-se culpado não resolverá nada. O ponto da questão está numa palavrinha chamada respeito. Lógico que há sempre problemas, como o sistema que vivemos, o capitalismo e o blá blá blá de sempre, que vira o mundo de cabeça para baixo. Mas acredito que a falta de respeito pelo próximo, pelo diferente, a falta de humildade e amor pelo ser é que geram casos assim, como a Apartheid. Não tem nada a ver com culpa, tem a ver com como me coloco no mundo, com como me respeito diante da vida, com como enxergo e reconheço o ser humano, tem a ver com ética. E respeito engloba todas essas coisas. E aí surge o ubuntu: o que faço afeta a todos. Se me respeito, respeito o semelhante e o mundo, de forma que mudamos nossa realidade/história.
Só que onde uma idéia vale mais que uma vida, não há como ser muito diferente.
...
***Tirado do filme. Há, em outra parte, uma fala assim sobre o ubuntu: "Fazemos parte um do outro. Quando o policial me machuca, ele fere a você também. Fere a todos neste mundo e também a ele".
Qualquer coisa: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ubuntu_%28ideologia%29 [Outra palavra que achei interessante é Hemadulus - o que há além. o meio do nada.]
P.S.: ainda sobre o filme, vale a pena dizer: a trilha sonora é de uma profundidade tocante e as cenas externas são lindas..bem filmadas. Como pode um país tão lindo, abençoado com a natureza, possuir uma maldição tão fulminante dos homens? Vê como a mesma beleza se transforma em tristeza, tão rapidamente? É como o amor, no filme "O Hotel de Um Milhão de Dólares", onde o personagem principal se joga de cima de um prédio por ter matado o melhor amigo - amigo que estuprou a mulher que este amava, por ser prostituta -, e enquanto vai caindo em seu suicídio, se questiona como é interessante que o mesmo amor que se ama uma pessoa, pode ser o amor que o faz cometer um crime - um assassinato, nesse caso. [Apesar que aí, de amor vira ódio. São dois sentimentos ligados, mas distintos]
Ah, os filmes! (uma das melhores partes da vida)
Não vi todos ainda. No entanto, vi uns três: “A Insustentável Leveza do Ser”, “La Double Vie de Veronique” (que cabelo perfeito é aquele de Irène Jacob?!) e “Hotel de Um Milhão de Dólares”.
Kieslowski (diretor de A Dupla Vida de Veronique, Triologia das Cores...) é um ataque de coração...leve e pesado ao mesmo tempo...sempre um paradoxo flutuante. Gosto muito das músicas que usa nos filmes, do compositor Zbigniew Preisner. É incrível como o som muda espetacularmente a imagem. Esse diretor tem sido o que mais gosto. Quero ler/aprender algo sobre seu cinema.
Em A Insustentável Leveza..., as atuações são excelentes, o que me levou a buscar outros filmes de Daniel Day-Lewis. Já Juliette “La Binoche”, acho muito interessante a forma de sua atuação. Aliás, atualmente ela está em “Le Voyage du Ballon Rouge”, de um tal de Hsiao-hsien Hou. Acho que é uma refilmagem, saiu agora em 2008, na França. Lendo sobre esse filme, achei interessante, pois a forma de trabalhar do diretor é só descrever mais ou menos a cena no roteiro e o resto – as falas, as posições em cena – são inventadas pelos atores, ali, na hora. E tipo, é tudo feito em um take – como se fosse vida real, as coisas acontecem ali, naquele momento e daquele jeito. Deve ser uma experiência e tanto.
Só não consegui achar um filme que você listou e que quero muitíssimo ver: "Les Amants du Pont-Neuf" e me interessei por outro do Leos Carax também, "Mauvais Sang". Infelizmente estão fora da internet. Vou ver se consigo na faculdade.
Ando com vontade imensa de aprender acordeom e estudar cinema francês, espanhol e mexicano, mas principalmente, fazer cinema – o que sempre quis, na realidade. Quem sabe um dia...a vida tem tantas surpresas.
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